por Ricardo Matosinhos
Matosinhos International Competition 2024
O processo criativo é frequentemente caótico, o que pode ser intimidante para muitos músicos. Como Sullivan descreve apropriadamente, “É como lavar um porco. Estou a falar a sério. É exatamente como lavar um porco. É confuso, não tem regras, não tem um início, meio ou fim claro, é um pouco irritante, e quando termina, não tem a certeza se o porco está limpo nem sequer sabe porque estava a lavar um porco.” (Sullivan, 2008, p. 46).
O meu processo criativo alinha-se bem com a descrição de Sullivan. É uma forma de caos controlado e acredito, firmemente, que a criatividade e o caos muitas vezes caminham de mãos dadas. Se seguirmos as mesmas rotinas todos os dias, há pouco espaço para a criatividade. Por exemplo, se estiver a trabalhar num aspeto técnico da interpretação e se continua a fazer a mesma tarefa da mesma forma, não é de esperar qualquer tipo de melhoria significativa. O que funciona com o seu professor ou com os seus amigos pode não funcionar necessariamente para si. Quando escolhemos um caminho diferente, abrimos a porta a novas possibilidades. Assim, tanto na interpretação de trompa como na composição ouse abraçar o caos, ser criativo e aprender com ele.
Posso pegar na minha trompa e começar a tocar a qualquer momento, mas tenho dificuldade em sentar-me à secretária e compor. Fui treinado como trompista, não como compositor. Como tal aprendi a ser espontâneo, a aproveitar as ideias conforme surgem. Às vezes estou no duche, a conduzir o carro ou a dois minutos de ir dar uma aula, quando uma ideia musical me ocorre. Em vez de me queixar, agradeço por esses momentos inspiradores, mesmo que nem sempre surjam nos momentos mais convenientes. Como tenho sempre o meu telemóvel comigo, abro uma aplicação de gravação e capturo a ideia. Se não tiver uma trompa por perto, posso cantar, murmurar, fazer percussão o assobiar. Isto pode até envolver canto de harmónicos ou vibração labial com multifónicos, quando estão envolvidas várias notas – vale tudo! Capturar o momento permite que a minha música flua sem excesso de análise. Mais tarde, quando tenho tempo, ouço as gravações. Infelizmente, algumas delas já não me fazem muito sentido. Nesses casos, extraio padrões rítmicos e motivos melódicos e tento voltar a entrar nesse estado criativo. Se funcionar, componho seja no papel, tablet ou no computador. Se não conseguir recapturar o estado de espírito, deixo e tento novamente noutro dia. Às vezes, no mesmo dia, ideias que pareciam esquivas, reaparecem subitamente. Outras podem pairar na minha imaginação durante dias antes de as colocar no papel.
Agora, dar-vos-ei alguns exemplos de como algumas das minhas peças ganharam vida. 'Heptafunk' é uma composição para doze trompas, onde apenas oito músicos usam bocais, enquanto os outros quatro tocam percussão com as suas trompas. 'Hepta' significa sete, e 'funk' evoca um ambiente funky. Assim, esta peça começa com duas indicações de compasso simultâneas 7/4 contra 7/16. Enquanto alguns compositores podem ver isso como uma oportunidade para explorar novas técnicas, como expliquei no meu processo criativo as minhas escolhas são muitas vezes mais espontâneas. Foi mais ou menos assim: um dia estava a caminho do trabalho e tive uma ideia em Dó Lídio Dominante com uma métrica de sete. Este modo, com os seu Sib e Fá#, surgiu naturalmente na minha mente assemelhando-se muito aos sons da trompa. Se começar uma série de harmónicos a partir do Dó e subir até ao 12º harmónico, o primeiro Fá e Si que encontrar são mais próximos do Fá# e Sib. Enquanto virava à direita num cruzamento, o clique do sinal de mudança de direção criou um contraste polirrítmico com a música que estava a cantar. Gostei do efeito, por isso, registei-o rapidamente no meu telemóvel e mais tarde incorporei-o na peça.
Também compus uma peça para um ensemble de flautas intitulada 'Onde é que eu já ouvi isto?' A inspiração para esta peça surgiu durante uma aula com um jovem aluno que estava a tocar a 'Machadinha', uma canção folclórica tradicional portuguesa. Começámos por a tocar num tempo lento e o aluno reconheceu-a, mas não conseguia lembrar-se do nome da música. No entanto, à medida que aumentámos gradualmente a pulsação, de repente, o aluno identificou-a. Esta experiência levou-me a pensar no efeito intrigante de pegar numa melodia folclórica bem conhecida e tocá-la num tempo diferente, criando a sensação de 'Eu conheço esta melodia, mas não consigo identificá-la.' Esta ideia deu origem a esta obra, que mais tarde ganhou um prémio de composição.
Outra peça com um título interessante é “There's a bottle in my (friend)ship!,” (Há uma garrafa na minha (amizade)!), tem uma história encantadora. Certa manhã, tive o primeiro ensaio de uma peça que compus para um trio de flautas. De tarde, um amigo aproximou-se de mim, perguntando se eu estaria interessado em compor uma peça para um ensemble de flautas para ser apresentada num festival de orquestras jovens. Inicialmente, hesitei devido a uma agenda apertada e às férias na Madeira dentro de alguns dias. No entanto, a menção de uma peça que envolvia garrafas afinadas despertou a minha criatividade. Era um dia quente, por isso, peguei numa garrafa de sidra de 33cl, anotei a nota mais aguda e desfrutei do seu conteúdo, anotando a nota mais grave na tessitura da flauta alto. Depois, passei para uma garrafa de vinho de 75cl, que se encontrava na tessitura da flauta baixo, e finalmente, uma garrafa de água com gás de 25cl. Desta vez Baco, o deus grego do vinho, inspirou-me a compor a peça e, em poucos dias, estava pronta.
Um dia perguntei à minha mulher, que é tradutora, se alguma vez tinha considerado escrever uma história infantil. Ela respondeu que preferia analisar e desconstruir frases em vez de as criar. No entanto, enquanto falava com ela, comecei a criar espontaneamente uma história sobre um gato que perdia as suas 7 vidas. Numa questão de minutos criei uma história, que se transformou num livro infantil e até mesmo num musical com uma orquestra sinfónica completa.
Como podem ver, o meu processo criativo não está predefinido. Quando decido compor uma peça é como lançar uma rede no desconhecido, sem saber que tipo de peixe vou apanhar. Às vezes, enquanto pratico trompa, os exercícios evoluem para peças ou estudos. Outras vezes, apenas duas notas ou um padrão rítmico servem de faísca para iniciar uma composição completa.
O grande trompista Douglas Hill (2001) recomenda a criação dos próprios estudos com base nas peças com as quais está a trabalhar. Esta abordagem permite-lhe encontrar soluções para problemas específicos que poderia não encontrar em estudos mais gerais. Hill também incentivava os alunos a comporem e o seu livro fornece informações valiosas sobre diversos processos e resultados. Um ponto crucial, que ele enfatizava, era que os alunos que compunham a sua própria música começavam a praticar com mais entusiasmo, porque gostavam de interpretar as suas composições. Isso melhorava as suas competências musicais e a sua capacidade de compreender e interpretar música composta por outros.
Para além dos estudos sugiro frequentemente aos meus alunos que criem as suas próprias cadências, pois isso pode melhorar significativamente as suas interpretações. As cadências devem demonstrar virtuosismo, mas não devem ser excessivamente desafiadoras, especialmente porque são, normalmente, interpretadas no final do primeiro andamento de uma peça. Embora tocar uma cadência composta por outro músico possa ser uma experiência valiosa, observei casos em que os músicos escolhiam cadências que não se alinhavam com o seus estilos de interpretação ou pontos fortes. Portanto, é essencial considerar fatores como o registo preferido, dinâmicas, articulações (legato ou staccato) e quaisquer técnicas estendidas da trompa que possa executar facilmente, o que pode melhorar a sua interpretação. Para auxiliar a criação de cadências, recomendo o livro de Michael Hoeltzel (2006), que descreve as melhores abordagens ao processo.
Composições de Tema e Variações oferecem um excelente ponto de partida para aspirantes a compositores, uma vez que fornecem material existente para trabalhar. Também encorajo os meus alunos a comporem as suas próprias variações quando interpretam peças que seguem esta estrutura. Através deste processo, obtêm uma compreensão mais profunda da música que estão a tocar, analisando a harmonia, as caraterísticas do tema principal e a forma como o compositor funde elementos musicais essenciais para criar as variações escritas. Mesmo que decida não partilhar as suas próprias variações com um público mais vasto, o processo em si ajuda-o a crescer como músico.
Tal como uma receita de culinária, a música é composta por vários elementos como ritmos, notas, articulações, dinâmicas e outros. Assim como comer o mesmo prato durante semanas pode levar ao aborrecimento, praticar os mesmos exercícios da mesma forma pode tornar-se monótono. A prática diária é crucial para a melhoria, mas isso não significa que não exista espaço para a introdução de variações. Pratico com variações subtis desde sempre. Esta abordagem não só me mantém interessado, como também leva a melhorias noutros aspetos da minha interpretação. Para ajudar os meus alunos e colegas músicos compilei estas ideias no meu método 'Horn365', que desenvolvi ao longo de 20 anos antes de o lançar.
O conceito de variar os exercícios também pode ajudar a manter a motivação e a fazer progressos de forma consistente. Consideremos a culinária italiana, conhecida pela sua mestria na variação. Ao mudar, simplesmente, o tipo de massa mantendo o molho constante podemos transformar a nossa refeição. Também podemos substituir a carne por legumes, peixe ou marisco. Todas essas mudanças ocorrem com um ingrediente de cada vez. Da mesma forma, a massa é principalmente feita de farinha de trigo e ao ser substituída por piza, todo o processo começa novamente. A beleza dessa abordagem culinária reside nas inúmeras variações que se conseguem obter, de forma simples com a alteração de apenas um elemento e também em saborear e compartilhar cada sabor com os amigos durante uma refeição. O mesmo princípio se aplica à música - ao adicionar variedade às suas sessões de prática, melhora e mantém-se motivado para praticar mais. Talvez, nalgum ponto desse processo, possa até mesmo compor uma peça de música e desfrutar da experiência.
Apesar de não ter um diploma formal em composição, descobri que tal não me impede de compor. Como trompistas, somos fluentes na linguagem da trompa. Entendemos as complexidades do nosso instrumento melhor do que qualquer outra pessoa. O nosso conhecimento supera o que qualquer livro de orquestração, instrumentação ou notação musical possa oferecer. Esta visão única permite-nos colaborar com os compositores ou até mesmo criar a nossa própria música. A ideia de escrita idiomática para trompa ganhou um papel de destaque, quando comecei a lecionar, e foi um tema central na minha pesquisa de mestrado e doutoramento. Enquanto buscava soluções para abordar questões específicas dos meus alunos, comecei a compor exercícios e estudos. Quando tentei inicialmente publicar o meu primeiro livro de estudos, as editoras mostraram pouco interesse nele e uma delas chegou mesmo a afirmar que só publicava música "escrita para humanos." No entanto, há uma década, organizei um concurso internacional online de estudos e, desde então, a minha música incluindo os meus estudos tem sido executada em todo o mundo. Infelizmente, ainda não há registo de apresentações por parte de extraterrestres. Se aprecia a minha música, agradeça ao Dr. Jeffrey Agrell, que desempenhou um papel fundamental em reconhecer a qualidade das minhas composições e abrir as portas para que o meu trabalho alcançasse um público global. O meu conselho aqui é não ter medo de partilhar a sua música com os outros. Se a aprecia, é provável que outros também o façam e com feedback construtivo pode aperfeiçoar o seu processo de composição.
O meu projeto mais recente envolve a composição de um novo conjunto de estudos técnicos para trompa, que tenho estado a escrever nos últimos meses. Com o lançamento desses onze estudos técnicos, estou a organizar outro concurso internacional online desta vez em colaboração com a minha editora na AvA Musical Editions. Convido-vos a todos a participar. Ao contrário de outros concursos de música tradicionais, não há taxa de inscrição - é totalmente gratuito. O único requisito é que os participantes executem as peças usando os originais. Na primeira ronda pode escolher um estudo deste livro novo e se desejar pode gravar mais do que um, sendo que cada vídeo conta como uma inscrição em separado, o que aumenta as suas hipóteses de ser selecionado. Na final, pode escolher uma das minhas peças solo. Além disso, esta competição oferece um aspeto pedagógico - todos os participantes, quer vençam ou não, receberão um feedback pessoal meu como compositor sobre a sua performance. Esse processo não só melhora a sua execução, mas também pode inspirá-lo a começar a compor a sua própria música. Mais importante, promete ser uma experiência prazerosa. Poderá encontrar mais informações no meu site:
https://www.ricardomatosinhos.com
Aguardo ansiosamente para ouvir as suas gravações e descobrir as suas composições.
Ricardo Matosinhos
Referências bibliográficas:
Hill, D. (2001). Collected Thoughts on Teaching and Learning, Creativity and Horn Performance. Warner Bros. Publications Inc.
Hoeltzel, M. (2006). Mastery of the French Horn: Technique and Musical Expression. Schott Music.
Sullivan, L. (2008). Hey, Whipple, Squeeze This - A Guide to Creating Great Ads (3rd ed.). John Wiley & Sons, Inc.