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Extras from The Horn Call, February, 2022

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Uma Nova Voz para a Tuba Wagneriana

Por Ricardo Matosinhos

A tuba wagneriana é um instrumento maravilhoso, tocado por trompistas. Este instrumento juntou-se à orquestra em óperas e obras sinfónicas no século XIX e começou a integrar a música de filmes no século XX. Infelizmente, por ser um instrumento muito caro não se encontra ao alcance de todos os trompistas a podem adquirir. No entanto tem havido, recentemente, um interesse renovado na tuba wagneriana, que em parte se deve aos fabricantes de instrumentos de baixo custo. Contudo, a primeira pergunta que todos os trompistas fazem sempre é se existe algum repertório de música solo ou de câmara para tuba wagneriana.

Em comparação com a trompa, tocar tuba wagneriana apresenta alguns desafios. A posição de execução pode ser problemática para alguns trompistas no que diz respeito à precisão e flexibilidade. Podem surgir problemas de afinação e articulação [1].

Apesar de todos estes desafios e tal como   mencionado por James Decker, a popularidade da tuba wagneriana aumentou nos filmes porque "o músico que toca dois instrumentos num só trabalho ganha 50% mais. Consequentemente, o empregador poupa 50% do ordenado que pagaria a um segundo músico e com isso consegue um segundo instrumento”[2].

Até aqui tudo bem, mas então a questão é o que tocar na tuba wagneriana fora das óperas, orquestra sinfónica ou dos filmes?

Como ponto de partida para o presente artigo havia algumas peças de música solo e de câmara. No entanto, à medida que a pesquisa foi avançando, o número de peças também foi aumentando, até atingir a quantia surpreendente de 100 peças para música solo e de câmara, incluindo tuba wagneriana! Ao falar sobre a tuba wagneriana fora do contexto orquestral, provavelmente 1.ª a primeira peça a sugir à memória seria Skurile Elegie de Jan Koetsier, composta em 1981. O fantástico trabalho de investigação de William Melton[3] desvendou mais algumas peças de câmara e solo e contribuiu para o renascimento deste antigo instrumento dos deuses de Valhalla. Para possibilitar esta pesquisa foram passados a pente fino vários catálogos de editoras e bases de dados de partituras, tendo sido encontradas ainda mais peças.

Grupos de trompas como o Los Angeles Horn Club[4] ou o London Horn Sound[5] contribuíram quer com obras originais, quer com arranjos para grupos de trompas e tuba wagneriana. Pelo que não foi uma surpresa que desta lista constassem 31 obras compostas para este tipo de grupos. Importa mencionar o trabalho do trompista Matthias Pfaum que criou 8 destes arranjos. Por terem sido compostas apenas para um conjunto tubas wagnerianas, dentro destas obras merece especial destaque: 5 Dramatic Pieces for 8 Wagner Tubass, do compositor britânico Andrew Downes, que também tocou o trompa[6].

A Tuba Wagneriana solo foi a categoria seguinte, em que que foi encontrado um grande número de obras. Aqui foram encontradas 14 peças, sendo que uma delas também inclui eletrónica, seguida de perto por 11 obras para tuba wagneriana e um instrumento de teclas (piano ou órgão). Em relação a estes dois grupos de peças vale a pena mencionar três projetos recentes de trompistas, que encomendaram música nova para tuba wagneriana e que estiveram presentes nos Simpósios Internacionais de Trompa: Bruce Richards (2013), Erika Loke (2018), Robert Palmer (2019).

Bruce Richards[7] desafiou os estudantes da composição do Conservatório de Liege a escreverem para tuba wagneriana. Eric Bettens e Guillaume Auvray aceitaram o desafio e as suas composições foram apresentadas no IHS 45 em Memphis, 2013.

Em 2016, Erika (Binsley) Loke recebeu um apoio do Meir Rimon Commissioning Assistance Fund para encomendar a Nick Norton a obra Gone to the Other Shore, para Tuba Wagneriana e eletrónica. Também ela fez um arranjo para tuba wagneriana e piano, incluindo material do Anel do Nibelungo de Wagner. No mesmo ano,  Gary Bachlund compos-lhe uma Sonatina para tuba wagneriana e piano[8]. Erika apresentou estas peças no IHS 50 em Muncie, 2018.

O trompista Robert Palmer também desafiou vários compositores a escreverem para tuba wagneriana. Palmer apresentou três dessas peças para tuba wagneriana e piano: Golden Fantasy de Randall Faust, Scattered light de Robert Davidson e Song without words, composta por mim, no IHS 51 em Ghent, 2019.

Sendo ele próprio um compositor, Robert Palmer também compôs Echoes of Abyssus para tuba wagneriana solo. Outros projetos de tuba wagneriana relacionados com este trompista incluem Romance for Wagner Tuba and Piano de Gina Gillie e a Sonatina para Tuba Wagneriana e orquestra de cordas de David Ott[9].

No total foram encontradas 11 peças para tuba wagneriana e instrumento de teclas (piano ou órgão). Importa mencionar a peculiar Sonata for Horn Family and Piano de Emil Kristoffersen Børø, que inclui trompa, tuba wagneriana tenor e tuba wagneriana baixo em Fá. 

A categoria seguinte a ser considerada inclui 6 obras para trompistas e ensemble, quer de cordas, orquestra sinfónica ou conjunto misto. Ao pesquisar, Edel Rhapsody de Stephen Caudel aparece como a primeira (1993), a incluir uma tuba wagneriana como solista e orquestra sinfónica, sendo que inclui também uma redução para piano[10]. Gonzales the Earth Eater de Jorge E. López é uma peça para um conjunto misto interessante, este compositor usou a tuba wagneriana em várias das suas obras. Continuando os passos de Koetsier foram encontradas mais duas peças para tuba wagneriana e cordas: Liszt but not Liszt de Eurico Carrapatoso e recentemente também a Sonatina para Tuba Wagneriana e orquestra de cordas de David Ott. Uma fonte menciona um Conzerto für Trompete und wagner tuba de Robert Winkler[11].

Sem surpresas foram encontradas 6 obras para o quinteto, que tradicionalmente se encontra nas peras Wagnerianas e que é  composto por 4 tubas wagnerianas e uma tuba baixo. Uma variação desta instrumentação pode ser encontrada em Remembered de Steven Juliani para 3 trompas, 2 tubas wagnerianas e tuba baixo.

Também foram encontradas 6 obras para variações do quinteto tradicional de metais ou do quinteto de sopros, onde a trompa é substituída pela tuba wagneriana e os outros instrumentos também são substituídos pelos seus instrumentos secundários. Em De Rode Kimono de Micha Hamel é adicionado um piano ao quinteto de sopros.

Foram encontradas três obras para ensembles com tubas wagnerianas e órgão: De Profundis uma obra original de Miloš Bok, Motets e o 1º andamento da 9.ª Sinfonia de Bruckner, um arranjo que também esteve a cargo de Bok.

Foram encontradas mais algumas peças com outras combinações de câmara de caráter marginal que são mencionadas neste artigo.

Esta pesquisa de repertório foi uma verdadeira surpresa e foi encontrado um número substancial de obras, que apresentam a tuba wagneriana em contextos solo e câmara. Trata-se de um bom ponto de partida, bem como de um bom convite para que os trompistas comprem, comecem a praticar e a executar este instrumento com maior frequência. À medida que os trompistas a começarem a tocar com regularidade, certamente que tal vai também encorajar os compositores a escreverem para tuba wagneriana. Nem todas as obras compostas para trompa se encaixam numa tuba wagneriana, especialmente se houver técnicas de mão direita envolvidas. Contudo, o contrário é perfeitamente possível, já que a música escrita para tuba wagneriana se vai enquadrar globalmente numa trompa e este é um bom aspeto a ter em consideração, uma vez que os compositores vão querer ver as suas obras tocadas. A tessitura da tuba wagneriana é bastante semelhante da trompa. No caso da tuba wagneriana simples vai haver uma quebra entre o 2.º harmónico da série de harmónicos mais grave e o 1.º harmónico da série de harmónicos mais aguda, mas tal estará disponível em instrumentos compensados.

Espero que este artigo contribua para uma melhor consciencialização do repertório disponível para tuba wagneriana. Assim, gostaria de desafiar todos os trompistas, que lerem este artigo, a falarem com os seus amigos compositores sobre a Tuba wagneriana. Esperamos que desta forma possamos começar a divertir-nos não só a tocar trompa, mas também tuba wagneriana.

Ricardo Matosinhos encontra-se atualmente a lecionar na Academia de Música de Costa Cabral, autor de vários estudos, peças e repertório de câmara para trompa e é também Doutorado em Música pela Universidade de Évora. Mais informações em: http://www.ricardomatosinhos.com 

Bibliografia

Decker, James. 1972. “Double or Nothing: How Tight Money in Hollywood Is Popularizing Deskants and Tuben.” The Horn Call, Journal of the International Horn Society II (2): 37–41.

Divoký, Zdeněk. 2006. “World Premiere Performance of 5 Dramatic Pieces for 8 Wagner Tubas by British Composer Andrew Downes.” The Horn Call, Journal of the International Horn Society XXXVI (3): 40.

Gary Bachlund. 2016. “Sonatina for Wagner Tuba and Piano.” 2016.http://www.bachlund.org/Sonatina_for_Wagner_Tuba_and_Piano.htm.

Melton, William. 2008. The Wagner Tuba: A History. Aachen: Edições Ebenos.

Renate Göltz Verlag. n.d. "Robert Winkler." Acedido a 1 de Julho de 2021. https://www.rgverlag.at/inhalt/autoren_liste_detail.php?ind_autor=76.

Richards, Bruce. 2019. "Wagner Tuba: The Story behind a Project.” 2019.http://brucerichardshorn.com/blog/wagner-tuba-the-story-behin.html.

Scharnberg, William. 1982. "A Wagner Tuba Primer." The Horn Call, Journal of the International Horn Society XXIII (1): 38–40.

"Stephen Caudel." 2021. The Wagner Tuba. 2021.https://www.wagner-tuba.com/composers-works/edel-rhapsody/.


[1] Scharnberg, William. 1982. "A Wagner Tuba Primer."

[2] Decker, James. 1972. “Double or Nothing: How Tight Money in Hollywood Is Popularizing Deskants and Tuben.”, p.38

[3] Melton, William. 2008. The Wagner Tuba: A History

[4] Ibid. menciona obras associadas ao Los Angeles Horn Club, composto por: Alec Wilder, David Raksin, George Hyde, Richard Nash e William Kraft.

[5] O projeto London Horn Sound contribuiu com obras e arranjos originais, incluindo tuba wagneriana por Eric Crees, Richard Bissill, Richard Payne e Timothy Jackson.

[6] O trompista checo Zdeněk Divoký relatou neste artigo a história da estreia ( Divoký 2006)

[7] Richards, Bruce. 2019. "Wagner Tuba: The Story behind a Project.”

[8] Gary Bachlund. 2016. “Sonatina for Wagner Tuba and Piano.”

[9] Esta informação foi obtida em comunicação pessoal com Robert Palmer.

[10] Esta fonte menciona que, se acredita ser a primeira vez que, uma obra para Tuba Wagneriana Tenor em Si bemol foi apresentada. ("Stephen Caudel" 2021)

[11] A fonte desta informação e o compositor foram contactados (Renate Göltz Verlag n.d.), sendo que este último confirmou que a obra foi estreada por volta do ano 2000 e que não foi publicada. Os interessados em apresentar esta obra poderão contactar o  compositor por email, jaguarxlr@gmail.com.