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Oportunidades, Desafios e Novos Recursos

por Ricardo Matosinhos

Este é o segundo artigo de uma série dedicada ao registo grave da trompa. Se ainda não leu a primeira parte, pode encontrá-la na edição de Junho da Horn and More.

O registo grave hoje: oportunidades e desafios

A distinção entre trompa grave e trompa aguda continua a ser relevante no repertório orquestral e na prática performativa em geral. Embora um profissional deva dominar toda a extensão, do Fá pedal até ao Dó sobre-agudo e mais além, muitos intérpretes tendem a especializar-se na zona que melhor se adequa às suas características físicas.

Muitos especialistas em registo grave começaram esse percurso por dificuldades no agudo ou porque o seu papel nos grupos exigia tocar frequentemente a 2.ª ou 4.ª trompa. Um aluno que toca repetidamente as vozes mais graves desenvolve inevitavelmente maior destreza nesse registo, mesmo que tal não fosse a sua preferência inicial.

Outro desafio importante é o uso de aparelho ortodôntico. Os brackets limitam naturalmente o acesso ao registo agudo, e quando o repertório proposto não tem em conta esta realidade, o aluno pode sentir frustração levando, por vezes, ao abandono do instrumento. Abordei esta questão no meu artigo “Orthodontics and Horn Performance” (The Horn Call, fevereiro 2016). Passados quase dez anos, é urgente retomar o tema, em particular no que toca ao repertório apropriado para alunos com aparelho ou para qualquer intérprete em processo de desenvolvimento do registo médio-grave e grave.

Ferramentas e estudos para desenvolver o registo grave

Quando publiquei o referido artigo, o dispositivo Stratos, concebido para reduzir a pressão da embocadura, existia apenas numa versão metálica dispendiosa. Entretanto, Marcus Reynolds lançou a versão Stratos Performer em plástico, mais acessível, e que tem recebido comentários positivos da comunidade de trompistas.

Estudos que se focam no trabalho do registo grave:

  • Caliendo, K. (2021) 18 Virtuosic Concert Etudes for Low Horn
  • Denniss, G. W. (1993) Studies for Low Horn
  • Frehse, A. (1954) 34 Etüden für tiefes Horn
  • Grabois, D. (2009) Twenty Difficult Etudes for the Horn’s Middle Register
  • Hackleman, M. (1990) 34 Characteristic Etudes for Low Horn Playing
  • Matosinhos, R. (2013) 15 Low Horn Etudes
  • McCoy, M. M. (1986) 46 Progressive Exercises for Low Horn
  • Miles, P. (2009) Low Horn Etudes and Drills for the Intermediate Horn Player
  • Neuling, H. (1951–1986) Spezial-Etüden für tiefes Horn e Studien für Horn
  • Pitarch, V. Z. (2002) 20 Estudios para Trompa Bajo
  • Ware, D. (2006) Low Horn Flexibility Studies
  • Weingärtner, F. (2009) Etüden für tiefes Horn, Vols. 1–3

Para além dos livros de estudos, a trompa oferece a possibilidade de transposição e praticar em Dó, Si♭ basso ou até ottava bassa, estará simultaneamente a desenvolver o registo grave e as suas capacidades de transposição.

Repertório para trompa grave: um catálogo em expansão

No que toca a peças a solo para trompa e piano, o repertório ainda é modesto, mas tem vindo a crescer. Tenho procurado contribuir activamente para essa expansão, com obras que exploram tanto o potencial expressivo como técnico do registo grave.

Importa realçar que muitas peças que exploram o registo grave são virtuosísticas, o que pode não ser adequado para quem utiliza aparelho ortodôntico, pelo menos nas fases iniciais. Já tive alunos que conseguiram tocar, por exemplo, o Romance op.67 de Saint-Saëns com Si agudo, ou o Concerto de Michael Haydn com vários Lá agudos, mas cada semitom nesse processo foi conquistado com suor, algumas lágrimas… e, felizmente, sem sangue!

Aqui ficam algumas sugestões comentadas:

  • Gillie, Gina (2019) – Reverie. Focada no registo médio, evita grandes saltos. Foi pensada para recuperação de distonia focal, mas ajusta-se bem a músicos com aparelho.
  • Miller, Brett – Hunting Songs. Três andamentos expressivos do grave ao Dó agudo.
  • Miller, Brett – Tardigrade. Enfatiza o registo médio-grave (Ré grave ao Mi agudo).
  • Yenque, Dante – Tanguito. Peça divertida com passagens bem resolvidas no dedo — do Lá grave ao Sol médio.

Algumas obras compostas por mim:

  • 5 Miniatures op.89b – Inspiradas em canções portuguesas; dificuldade progressiva, do Fá pedal ao Fá agudo.
  • Low Horn Suite n.º 1 – Três andamentos contrastantes, do Dó grave ao Lá médio.
  • 4 Peças – Exploram claramente o lado em Si♭ da trompa; Dó grave ao Si médio.
  • Low Horn Suite n.º 2 – Mais exigente que a Low horn suite 1; Dó grave ao Mi agudo.
  • 4 Impressions – Baseada em canções tradicionais; Dó grave ao Fá agudo, com ossias mais acessíveis.
  • 5 Miniatures op.88 – Gradual, dos primeiros 5 anos de aprendizagem; do Dó grave ao Sol agudo.
  • Katharina’s Suite – Predominantemente no registo médio; espaço para improvisação permite ajustar a tessitura.
  • Reflections – Vencedora do concurso IHS 2016; do Sol♯ grave ao Sol agudo, foco no médio-grave.
  • Iberia – Vencedora do concurso IHS 2024 e da BHS. Do Dó grave ao Fá/sol agudos, com multifónicos e ossias adaptáveis.
  • Blues for Marco – Peça mais desafiante; do Dó pedal a Fá agudo (com ossia Fá grave–Fá agudo).

Considerações finais:

Se decidir investir no registo grave, lembre-se de que pode sempre transcrever ou compor novas peças ajustadas à sua tessitura ideal.

Espero que estes artigos tenham despertado mais interesse pela exploração do registo grave da trompa. Divirta-se a tocar neste maravilhoso e muitas vezes negligenciado universo sonoro!