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silvaFoi com grande satisfação e alegria que recebi do meu muito estimado Prof. Ab Koster o desafio de dar a minha contribuição para a Coluna Pedagógica da IHS Newsletter. Esta Coluna é uma ideia fantástica e tem apresentado artigos muito interessantes e inspiradores. É mais uma demonstração do papel da IHS e de como é uma verdadeira sociedade internacional. Sem querer ser demasiado exaustivo, gostaria de partilhar com os leitores algumas das minhas ideias principais sobre a trompa e sobre a sua prática.

O caminho para o sucesso é muito complexo e depende de muitos aspectos que estão interligados. Como em tudo na vida tem de haver equilíbrio e estabilidade. No entanto, nesta ocasião, gostaria de destacar alguns pontos que para mim são fundamentais:

1 – SOM

Na minha opinião é aquilo que mais diferencia a trompa de todos os outros instrumentos. Certamente é o que, a nós trompistas, nos apaixona e o que encanta o público. Haverá sempre instrumentos que tocam mais forte que uma trompa, que serão mais virtuosos, que tocam mais agudo, mais grave, etc. Mas poucos instrumentos têm a capacidade de encantar com um simples som e de tocar qualquer alma. Olhemos para alguns dos nossos solos orquestrais mais admirados, como por exemplo a 2ª Sinfonia de Brahms, 5ª Sinfonia de Tchaikovsky, 9ª Sinfonia de Beethoven (Trompa IV), Nocturno de ‘Sonho de uma Noite de Verão’ de Mendelssohn, 1ª Sinfonia de Mahler, Sinfonia Alpina de Richard Strauss, etc… Não serão certamente exemplos de virtuosidade, no entanto são momentos fantásticos do repertório orquestral e capazes de deixar qualquer plateia rendida. E porquê? Certamente pela capacidade sonora do instrumento. Em suma, no meu entender o primeiro fundamento é a qualidade sonora. Deverá ser algo que nos identifica, a nossa voz e alma. Independentemente de haver diferentes conceitos sobre sonoridade, para mim o mais importante é que o som seja centrado, claro, e projectante. A nossa embocadura, a posição da mão dentro da campânula, a forma como respiramos e usamos o ar têm um papel decisivo na qualidade da nossa sonoridade.

2 – EMBOCADURA

O papel da embocadura é crucial e definidor daquilo que somos como trompistas. Uma embocadura forte e estável é fundamental. O objectivo é tocar de forma competente em todo o registo da trompa, conseguir ser flexível mantendo a qualidade da sonoridade e afinação. Recomendo a prática diária de vibração labial, com e sem bocal. O estudo de notas longas é muito útil para o fortalecimento da embocadura, resistência e da qualidade sonora.

3 – AR

O ar tem sempre que fluir para que tocar trompa seja um acto natural e não forçado. Usar a quantidade adequada de ar para a linha musical em questão, a velocidade do ar necessária para que não haja quebras de vibração e a compressão e suporte suficiente para que o registo agudo ou intervalos não sejam um problema.

4 – TÉCNICA

Trabalhar a técnica individual diariamente. Acho importante começar a trabalhá-la logo no Warm-Up diário. Quanto melhor e mais completo for o Warm-Up melhor preparados estaremos e é fundamental para que estejamos em forma. É importante não deixar qualquer aspecto técnico sem trabalhar. Para quem tenham alguma dificuldade em organizar o seu estudo recomendo o uso de uma tabela onde possam discriminar e acompanhar o tipo e a quantidade de trabalho que realizam diariamente e/ou semanalmente. Aquilo que menos trabalharmos será aquilo que será mais complicado de fazermos bem.

5 – PERSONALIDADE

Na música, como em qualquer outra forma de arte, a personalidade de cada intérprete é determinante no seu trabalho. Quando trabalho com os meus alunos tento partilhar com eles as minhas experiências, o meu conhecimento, as minhas ideias e procuro incentivá-los a serem indivíduos, e darem o seu cunho pessoal. Sempre aprendi a apreciar, respeitar e admirar diferentes ideias e conceitos. A uniformidade tráz a previsibilidade o que retira criatividade e interesse. As escolhas e opções musicais devem ser fundamentadas e compreendidas, para que possam ser credíveis e coerentes. Hoje em dia é muito fácil ter acesso à informação, percorrer o Mundo de forma física ou virtual, conhecer diferentes tradições e conceitos. Cabe-nos observar e absorver esses conhecimentos e criar a nossa bagagem cultural. Um músico é um artista que transmite uma mensagem ou sensações a quem o escuta. Para que essa mensagem resulte, o artista tem que a sentir e personificar. Precisamos de ter coragem em arriscar ser diferentes e únicos.

Obviamente, muito mais haveria por dizer. Aqui ficaram alguns dos meus pensamentos, e alguns dos meus principais fundamentos, sobre a prática da trompa. A trompa é uma paixão, seja como ouvinte, intérprete ou professor. A vontade e gozo em descobrir e aprender mais são um tónico diário. Desfruta! 


J. BERNARDO SILVA

É membro da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, em Portugal, desde 2000.

É professor na Universidade de Aveiro e na Escola Profissional de Música de Espinho. Apresentou-se em vários países da Europa, como solista, em música de câmara e em orquestra. Apresentou-se como artista convidado em vários festivais e congressos de metais e trompa, incluindo os da Sociedade Internacional de Trompas e Lieksa Brass Week, na Finlândia. Tem sido um instrumentista de música de câmara muito ativo, é membro fundador do quarteto Trompas Lusas.

Foi premiado com o 1ºprémio no Concurso Internacional Philip Farkas organizado pela Sociedade Internacional de Trompistas em Lahti, Finlândia, em 2002.

A sua discografia conta com vários trabalhos a solo, em música de câmara e como músico de orquestra.

www.jbernardosilva.com