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matoshinosDesde cedo me interessei pela composição, tendo começado a esboçar pequenas composições aos 14 anos de idade, durante a formação comum a todos os músicos. Dediquei-me, entretanto, ao estudo aprofundado da trompa e só mais tarde, assim que comecei a leccionar, é que a semente da composição que havia sido lançada durante os seus primeiros anos de formação, começou a florescer com composições pedagógicas para trompa, motivadas pelo défice de repertório que encontrei em algumas áreas.

Nas minhas composições podem encontrar-se influências do jazz e da música do mundo, com sonoridades por vezes próximas a Arkady Shilkloper, um trompista cujo trabalho admiro muito. O facto de ter tido algumas aulas com o saxofonista de jazz Mário Santos também veio a influenciar em muito o meu estilo composicional. Nas minhas obras pedagógicas está igualmente presente a minha experiência enquanto professor, onde diariamente observo as dificuldades que os alunos apresentam, procurando construir desafios para que estes as vençam ou pelo menos comecem a domesticar este instrumento feroz, que é a trompa.

A primeira área que abordei foram os estudos, elementos essenciais à formação de qualquer trompista, com os quais é possível solidificar o trabalho técnico e interpretativo. Como o próprio nome indica os estudos são para estudar, contudo, os alunos tendem a desvalorizar a sua importância em detrimento das peças. Pensei, então, numa forma de incentivar os alunos, usando diferentes tipos de sonoridades para tornar o trabalho mais apelativo, já que o estudo tem de ser diário, pelo menos que seja feito com muita diversão à mistura! Algo transversal à minha escrita pedagógica é a ideia de que não conseguimos evoluir, se tudo for demasiado fácil ou demasiado difícil. Assim é necessário encontrar um equilíbrio que propicie a evolução para que, se uma obra for difícil ou mesmo muito difícil num determinado aspecto, terá de ser fácil ou mesmo muito fácil noutros. Muitas das minhas obras mais avançadas parecem muito difíceis numa primeira abordagem, mas na prática há sempre alguns elementos que as fazem soar mais difíceis do que realmente são.

Escrevi então 50 estudos divididos em 4 livros, dois deles dedicados ao trompista Arkady Shilkloper, um livro para trompa grave dedicado à trompista Sarah Willis e um curioso livro de 13 estudos, inspirados em motivos de sorte e azar porque isto de tocar trompa nada tem a ver com sorte e azar, é tudo uma questão de prática!

O meu interesse pela temática dos estudos foi tal, que a minha dissertação de mestrado acabou por se direccionar para esta área, com uma “Bibliografia anotada e seleccionada de estudos para trompa publicados entre 1950 e 2011”.

A pensar nos mais novos compilei também uma serie de 25 canções infantis, devidamente adaptadas à iniciação ao instrumento, tanto em trompa fá como em trompa si bemol. Desta forma os principiantes têm agora um livro de iniciação mesmo fácil, numa tessitura limitada (fá2-lá3), com alguma referência auditiva, já que a grande maioria das canções são do conhecimento dos alunos. Versões em duo para professor/aluno e 20 estudos fáceis complementam esta publicação.

As escalas também não ficaram esquecidas: no livro “Eu gosto de estudar escalas!” apresento uma série de exercícios com uma abordagem passo a passo, mas diferente do habitual, dando enfoque à prática e não à teoria, tal e qual a aprendizagem natural de uma língua. Tenho ainda, praticamente concluído, um colossal projecto de exercícios intitulado horn365 do qual haverá novidades em breve….

No que diz respeito à música de câmara, escrevi também 5 divertidas suites para trompa e piano para os níveis básico e intermédio, com bastante ênfase nos elementos rítmicos, mas propositadamente sem explorar em demasia a tessitura da trompa. Duas destas suites foram escritas para o registo grave da trompa ajudando a colmatar a lacuna de repertório existente para alunos de nível intermédio, que queiram trabalhar este registo ou que tenham colocado, por exemplo, um aparelho de correcção ortodentária e tenham ficado, por isso, temporariamente limitados ao registo agudo. Ainda no âmbito da música de câmara, escrevi igualmente duos, trios, quartetos e peças para grande ensemble de trompas.

Nem só de pão vive o homem e nem só de agudos o trompista! A trompa é um instrumento muito capaz, apresenta os seus desafios mas creio que não é suficientemente explorada no que diz respeito à composição: tem uma tessitura alargada, com um registo grave incrível que ainda é descurado tanto na aprendizagem como do ponto de vista composicional. As extended-techniques na trompa, quando usadas de forma idiomática, também possibilitam um mundo novo de possibilidades. Por ser trompista e conhecer bem o instrumento, uso uma vasta paleta de efeitos nas minhas obras, tendo sempre em mente o máximo efeito possível com o mínimo esforço.

O meu processo de composição é livre, por vezes caótico, mas acredito que a criatividade e o caos andam sempre de mãos dadas uma vez que, se todos os dias percorrermos os mesmos caminhos e fizermos as mesmas coisas, não há espaço para a criatividade. Escolher um caminho alternativo acaba sempre por compensar, ainda que, por vezes, nos leve a um beco sem saída. Contudo do novo percurso pode sempre resultar a possibilidade de descobrir a inspiração para a próxima obra. Para mim, mais importante do que isso, é a ousadia de tentar pois a mudança criativa só ocorre por uma acção humana. A inspiração surge-me a partir de experiências diferentes, mesmo que nada tenham que ver com a música, e ocorre-me muitas vezes 5 minutos antes de sair de casa, numa viagem de carro ou em outras situações não muito propícias à composição. Então, ao invés de desperdiçar tempo a lamentar-me, gravo o momento com o telemóvel ou anoto num pedaço de papel, aproveitando desta forma a espontaneidade do momento e acabando por retomar essas mesmas ideias mais tarde. E, de alguma forma tem resultado, visto que as críticas do público e intérpretes têm sido, francamente, positivas e já algumas das minhas obras foram reconhecidas em vários concursos nacionais e internacionais.

Como não frequentei nenhum curso específico de composição, sinto que tenho a vantagem de não ter que seguir necessariamente nenhum estilo específico de composição, nem ter que usar um determinado tipo de técnica, simplesmente porque sim. A música vem ter comigo e eu limito-me a escrever em papel e a divertir-me com todo o processo. Aos intérpretes apenas peço que leiam o que literalmente escrevi a preto e branco e adicionem cores, com a sua interpretação, oferecendo a sua arte aos outros, mas acima de tudo, que se divirtam enquanto o fazem.

Ricardo Matosinhos

Caravan from the 7 Horn Duos

https://soundcloud.com/rmatosinhos/7-horn-duos-by-ricardo-matosinhos-no4-caravan

Etudes - Ricardo Matosinhos

https://www.youtube.com/watch?v=DHMHoJacxV4

Low Horn Suite (no.1) for Horn and Piano

https://www.youtube.com/watch?v=Akj0rPBHdE0

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Website de Ricardo Matosinhos: http://www.ricardomatosinhos.com

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Ricardo Matosinhos nasceu em 1982, foi aluno da classe de Trompa de Ivan Kučera, na ESPROARTE (1994-2000) e Bohdan Šebestik na ESMAE, onde concluiu a licenciatura em 2004.

A curiosidade levou-o a explorar os caminhos da trompa no jazz e, por essa razão, teve aulas com o saxofonista Mário Santos, cuja influência se veio a refletir mais tarde no seu estilo de composição.

Concluiu, em 2012, o mestrado em Ensino da Música, na Universidade Católica, com a apresentação da dissertação “Bibliografia Selecionada e Anotada de Estudos para Trompa Publicados entre 1950 e 2011”.

Participou em diversos cursos de aperfeiçoamento em Portugal e no Estrangeiro.

Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1998 e 2004.

Em 2007 foi-lhe atribuído o 2º prémio do concurso Jovens Músicos na modalidade de Trompa Nível Superior. 

Como artista convidado colaborou com a Orquestra Filarmonia das Beiras, Orquestra do Norte, Orquestra de Jazz de Matosinhos, Remix Ensemble, ONP entre outras.

Ministrou diversos Workshops e Cursos de Aperfeiçoamento em Portugal e na República Checa.

No âmbito da composição é autor de diversos materiais pedagógicos para o ensino da trompa, bem como, de composições para diversas formações instrumentais. Viu algumas das suas obras reconhecidas em vários concursos nacionais e internacionais.

Atualmente leciona na Academia de Costa Cabral (Porto) e frequenta o programa de Doutoramento em Música e Musicologia, Interpretação na Universidade de Évora.

É membro da International Horn Society.